DOIS MIL QUILOMETROS TAMBÉM CANSAM 30/01 18:57

DOIS MIL QUILOMETROS TAMBÉM CANSAM 30/01 18:57

2026 não é um ano de recomeços.
Não no sentido bonito da palavra.
É, talvez, um ano de confirmação.
De confirmação de limites.
De cansaços que já não se atravessam a fingir força.
De lugares escuros que voltam a ser visitados — não por saudade, mas por necessidade.
Hoje voltei a um desses lugares.
Fiquei lá apenas alguns minutos.

O suficiente.
O frio ainda estava lá.

A humidade entranhada nas paredes invisíveis da memória.
Mas descobri uma coisa simples e definitiva: aprendi.
Aprendi que tenho um limite.
E que já não o ultrapasso mais.
Foi preciso ir lá hoje.
Caso contrário, a dúvida ficaria para sempre a roer por dentro, como um inverno que nunca acaba.
Outras dúvidas virão.
Outras pessoas.
Outras possibilidades.
Nem todas terão de ser testadas.

Nem todas merecem o corpo cansado, os ossos doridos, a alma em esforço.
A verdade — sem floreados — é esta: estou a tentar. Mesmo.
Mas tentar também cansa.
E o cansaço obriga a escolhas difíceis.
Sacrifícios silenciosos. Meus.

De quem caminha comigo.
Podemos inventar mapas.
Contar histórias bonitas.
Florear distâncias.
Mas quase dois mil quilómetros não passam a cem só porque queremos muito.
Não acabam magicamente na casa do Tio Patinhas.
São quilómetros reais.
Feitos de estradas longas, países sem fim, patrimónios que passam pela janela do carro como se não houvesse tempo para ficar.
Feitos de aeroportos frios, aviões madrugadores, malas demasiado cheias, casacos empilhados, garrafas de água esquecidas, roupa por lavar.
Dormidas pelo caminho.
Olheiras.
Silêncios.
Crianças que aprendem cedo o valor da espera, da resiliência, da adaptação.
Mas há algo que fica.
Algo que nenhum dinheiro compra.
Os nossos olhos conhecem melhor o mundo.
Os nossos filhos crescem a saber que a vida também se faz de esforço e presença.
E nós estamos. Juntos. Aqui.
E olha — não sei se a vida é mais do que isto.
Mas sei que isto já é muito.
A presença.
O amor.
A companhia.
E estar perto.