A depressão não acabou quando eu voltei a sorrir
Tenho depressão maior e PHDA.
A PHDA foi diagnosticada já depois de a depressão fazer parte da minha vida. E, neste momento, talvez seja uma das coisas que mais interfere com os meus dias.
Há alturas em que o meu cérebro parece ter cinquenta separadores abertos ao mesmo tempo.
Tenho coisas para fazer. Quero fazê-las. Sei que são importantes. Algumas até me dão prazer.
Mas é tanta coisa dentro da minha cabeça que acontece exatamente o contrário daquilo que seria esperado.
Eu paro.
Não é descanso.
Não é preguiça.
Não é falta de vontade.
É como se o cérebro ficasse cheio demais para conseguir escolher por onde começar.
E então quero deitar-me.
Durante muito tempo foi isso que fiz. Deitava-me e esperava que aquele momento passasse.
Eu sabia que não estava a resolver nada. Mas levantar-me parecia significar lutar contra cada parte do meu corpo.
Durante mais de um ano perdi muitas horas assim.
Perdi trabalho. Perdi tempo. Recusei coisas. Adiei outras. E, talvez aquilo que mais me custa admitir, perdi pedaços de mim.
Hoje existe um cansaço que já nem sei explicar.
Também sei reconhecer a minha responsabilidade nisto.
Durmo mal. Não respeito horários. Muitas vezes não paro para comer como deve ser. Trabalho quando devia descansar e descanso quando já estou completamente esgotada.
Às vezes queremos que a medicação resolva aquilo que continuamos a exigir ao corpo todos os dias.
Recentemente precisei de conseguir funcionar melhor ao final do dia e fiz alterações à minha medicação por iniciativa própria.
Não devia tê-lo feito sem falar primeiro com a minha médica.
Escrevo isto precisamente porque não quero transformar uma experiência pessoal numa recomendação. Medicação psiquiátrica não é uma experiência de tentativa e erro que devamos fazer sozinhos. Se alguma coisa deixou de funcionar, se os horários parecem errados ou se os efeitos mudaram, isso é uma conversa para ter com o profissional que nos acompanha.
Mas este episódio fez-me voltar a pensar numa coisa.
Nós ainda percebemos muito mal o sofrimento mental.
Quando alguém tem uma doença física grave, compreendemos que possa precisar de parar.
Quando alguém diz que tem depressão, ainda perguntamos, mesmo que seja apenas com os olhos:
"Mas ainda estás assim?"
Sim.
Às vezes ainda estou assim.
Há alguns anos, enquanto eu começava esta caminhada, pessoas próximas de mim enfrentaram cancro da mama.
Vi tratamentos, cirurgias, queda de cabelo, medo e uma violência física que nunca tentaria diminuir.
Hoje vejo algumas dessas pessoas novamente a trabalhar, viajar, sair com amigas e reconstruir a vida.
E eu continuo aqui, ainda medicada, ainda acompanhada, ainda a aprender a viver com uma doença que ninguém consegue ver quando olha para mim.
Não significa que a depressão seja pior do que o cancro.
Significa outra coisa.
Não devemos medir a gravidade de uma doença pela quantidade de sinais que ela deixa no corpo.
Uma pessoa pode estar arranjada, trabalhar, publicar fotografias, rir, cuidar dos filhos e, mesmo assim, estar profundamente doente.
Eu sei porque já fui essa pessoa.
A depressão também tem uma característica particularmente cruel.
Ela consegue alterar aquilo que sentimos sobre a própria vida.
Houve momentos em que olhei para um filho e pensei que eu não estava aqui a fazer nada.
Hoje, medicada e capaz de pensar com maior clareza, custa-me até escrever esta frase.
Como pode uma mãe olhar para um filho que ama e, ainda assim, não conseguir encontrar nesse amor força suficiente para querer continuar?
Pode.
E compreender isto é importante.
Porque uma pessoa nesse estado não precisa que lhe expliquem quantas razões tem para viver.
Provavelmente conhece-as todas.
O problema é que, naquele momento, a doença não lhe permite senti-las da mesma forma.
Há ainda outra parte sobre a qual falamos pouco.
A procura de compensações.
Durante muito tempo pensei que uma pessoa com depressão fosse simplesmente mais fraca perante determinados vícios.
Hoje vejo isso de maneira diferente.
Quando existe tristeza, vazio ou apatia durante demasiado tempo, o cérebro procura alívio.
Pode encontrá-lo nas compras, na comida, no álcool, no jogo, nas redes sociais, no trabalho ou noutra coisa qualquer que ofereça alguns minutos de prazer, distração ou sensação de controlo.
O problema começa quando aquilo que nos alivia também começa a fazer-nos mal.
Sabemos.
Vemos.
Às vezes até sentimos vergonha.
E repetimos.
Não porque sejamos pessoas fracas, mas porque perceber um comportamento não significa automaticamente conseguir pará-lo.
É aqui que entra uma palavra que durante muito tempo nem sabia dizer corretamente.
Anedonia.
É a dificuldade ou incapacidade de sentir prazer.
Não significa necessariamente estar a chorar.
Às vezes significa simplesmente não sentir quase nada.
E talvez seja essa uma das partes mais difíceis de explicar a quem nunca passou por uma depressão.
Há dias em que não estou propriamente triste.
Estou ausente.
E o que estou a tentar aprender agora é a reconhecer o que acontece antes de chegar aí.
Estou cansada?
Dormi?
Comi?
Estou a tentar fazer dez coisas ao mesmo tempo?
Passei horas sem parar?
Estou a exigir de mim uma capacidade que hoje simplesmente não tenho?
Preciso de ajuda profissional?
Parece demasiado simples, mas estas perguntas podem ser importantes.
Porque saúde mental também se trata nas coisas pequenas.
Dormir com alguma regularidade.
Comer sentado.
Fazer uma coisa de cada vez.
Diminuir estímulos quando o cérebro está saturado.
Perceber quais são os primeiros sinais de uma quebra.
Aceitar acompanhamento.
E falar com o médico quando o tratamento já não parece estar ajustado, em vez de tentar resolver tudo sozinho.
Nada disto substitui tratamento.
Mas tratamento também não significa apenas tomar comprimidos.
Significa aprender a conhecer o cérebro e o corpo onde vamos ter de viver todos os dias.
Ainda tenho muito para aprender.
Há uma coisa, sobretudo, que continuo sem conseguir ver em mim.
As pessoas dizem-me muitas vezes que sou especial. Que tenho um coração enorme. Que faço bem aos outros.
Gostava de conseguir olhar para mim com os olhos delas.
Gostava de acreditar sem hesitar que sou aquilo que elas veem.
Ainda não consigo.
Mas talvez recuperar também seja isto.
Não acordar um dia completamente curada.
Não voltar a ser exatamente quem éramos antes.
Talvez seja começar, muito devagar, a deixar de viver contra nós próprios.
E aprender a ficar.
Primeiro por um dia.
Depois por outro.
Até que estar aqui deixe de ser apenas sobreviver e volte, finalmente, a parecer-se com viver.