Hoje, 20 de janeiro de 2026, senti necessidade de fazer uma pergunta ao Miguel.
Não ao Miguel de agora.
Ao Miguel de 2009.
Ao Miguel que ficou algures dentro de mim.
Perguntei-lhe o que lhe aconteceu.
Porque passaram muitos anos, muitas vidas, muitas versões de nós.
E ainda assim, nunca consegui desligar completamente aquilo que foi.
Aquilo que ficou suspenso.
Expliquei-lhe isso através de uma situação com a minha mãe. Disse-lhe:
— Isto não é sobre ti. É sobre mim.
Tenho dificuldade no desapego. Não consigo compreender como é que algumas pessoas conseguem, com tanta rapidez — quase com frieza — desligar-se emocionalmente.
Digo rapidez porque, para quem sente, o tempo nunca é neutro.
Ele pesa.
O Miguel disse-me que eu tinha sido a mulher da vida dele.
Mas no tempo errado.
Que, naquela altura, não teve maturidade para assumir isso.
Disse que gostava de mim como pessoa, como mulher.
E essa palavra — mulher — ecoou em mim.
Porque pergunto-me:
como se trata com frieza alguém de quem se diz gostar assim?
Como se olha com distância alguém que marcou dessa forma?
A resposta foi vazia.
Disse-me que tem uma vida preenchida. Projetos, tarefas, compromissos.
Que, no fim do dia, se dedica à família.
E que já não consegue ser o Miguel que eu espero.
Fiquei presa numa pergunta simples e devastadora:
em que momento isto aconteceu?
Em que circunstâncias alguém deixa de sentir — ou decide deixar de sentir — assim?
A resposta foi qualquer coisa como:
a vida.
E eu senti indignação.
Uma indignação silenciosa, mas profunda.
Pensei: isto não é verdadeiro.
Ou então sou eu que sinto demasiado.
Ou então sou eu que não pertenço a este mundo onde as pessoas aprendem a proteger-se desligando.
Porque o que sinto não é indiferença.
É defesa.
É como se alguém dissesse:
Não me aproximo para não sentir.
Não falo para não mexer.
Não olho para não doer.
Talvez seja apenas uma sensação.
Não sei se mais alguém já sentiu isto.
Não sei se quem lê já esteve deste lado — o lado de quem fica.
Mas há momentos em que me pergunto:
porque é que uns sentem tão intensamente, enquanto outros simplesmente seguem?
Cheguei a uma conclusão — e custou-me chegar aqui.
Isto veio para me ensinar alguma coisa.
Aliás, tudo vem sempre para nos ensinar alguma coisa.
Esta crónica não é sobre o outro.
É sobre nós.
Nós projetamos no outro aquilo que gostaríamos de viver.
Amamos, muitas vezes, não pelo que o outro é —
mas pelo que sentimos quando estamos perto dele.
Talvez seja isso que aconteceu comigo.
Talvez seja isso que acontece tantas vezes.
Perceber isto muda tudo.
Porque me obriga a olhar para mim sem romantizar a dor.
Eu precisava de passar por isto para escrever estas páginas.
Sem este frio, eu não teria esta lucidez.
Sem esta ausência, não teria este conhecimento.
Talvez continuasse a diminuir-me para caber numa vida que nunca foi a minha.
Hoje sei uma coisa com clareza quase dolorosa:
a única maneira de eu ser feliz —
a única forma de sair deste caminho sem sofrer mais —
é desprender-me.
Não apagar.
Não negar.
Mas desprender.
E deixar que a dor fique nas folhas.