INFÂNCIA INTERROMPIDA 1983/2001

INFÂNCIA INTERROMPIDA 1983/2001

Cresci cedo demais.
Não por escolha,
mas por ausência.

Pais jovens.
Uma casa onde o corpo estava,
mas a presença não sabia ficar.
O afecto entrava e saía
sem aprender o caminho de volta.

Aos doze anos disseram-me para sair.
Não por rebeldia.
Por ter dito a verdade.

Nesse dia aprendi duas coisas:
que a palavra tem custo
e que nem todos suportam o espelho
quando ele fala.

A partir daí, vivi sem rede.
Sem lugar assegurado.
Sem a proteção a que chamam infância
como se fosse um direito natural.

Nunca aprendi a brincar sem atenção ao perigo.
Aprendi a vigiar o ambiente,
a medir silêncios,
a perceber quando era melhor calar.

Não me ensinaram a descansar.
Ensinaram-me, sem saber,
a aguentar.
A observar.
A ficar de pé quando ninguém ficava.

A infância não me foi retirada de um golpe.
Foi-se interrompendo.
Devagar.
Em pequenos cortes quase invisíveis.

Até restar apenas o essencial:
continuar.