O parto do Pedro foi duro demais.
Não foi só físico.
Foi um corte fundo, invisível, que ficou.
Machucaram-no.
Machucaram-me.
Vieram as consultas, a fisioterapia,
as noites sem descanso,
o medo a instalar-se em silêncio.
A depressão não entrou de rompante.
Chegou como nevoeiro.
Devagar.
Até ocupar tudo.
Tive dois colapsos mentais.
Pensamentos perigosos.
Dias em que não sabia se ia conseguir ficar.
Mas fiquei.
Fiquei pela minha família.
Fiquei pela fé, mesmo frágil.
E fiquei pela escrita —
a única mão que me puxou de volta
quando já não sabia onde era o chão.
2020 não me quebrou.
Mas mostrou-me até onde podia cair
e ainda assim permanecer.