O MAPA NÃO ME ENSINOU ISTO

O MAPA NÃO ME ENSINOU ISTO

Quando tinha dezoito anos — e apesar de já ser mãe — pouco sabia da vida.Mas havia uma certeza inteira dentro de mim: queria viver no Algarve.
Queria viver onde o verão parecia não acabar nunca. Onde o sol não se desculpava. Onde a pele ficava salgada e a roupa secava sozinha ao fim da tarde.
Lembro-me das viagens de regresso a Lisboa. Do autocarro a afastar-se do mar. Do olhar colado à janela. Os meus olhos já sabiam de cor o caminho das lágrimas.
Durante anos, visitei o Algarve quatro, cinco vezes por ano.
Mesmo quando o dinheiro era curto. Mesmo quando não havia margem para escolhas bonitas.
Mesmo quando só podia acampar — e eu não gosto de campismo. Não gosto. E está tudo bem. Cada um gosta do que gosta.
Acampava porque era isso ou nada.
Porque a vida, naquela altura, não me permitia mais.
Dormia em colchões finos, acordava com o chão frio a subir pelas costas, com o cheiro da relva húmida e do café fraco feito à pressa. E ainda assim, sentia-me rica. Porque estava perto do mar. Porque era verão. Porque era ali.
Os anos passaram. Outras viagens vieram.
Mas o registo mantinha-se: praia, sol, o azul turquesa do mar a entrar-me pelos olhos como se fosse casa.
Até que, há cerca de seis anos, fiz a viagem que mais me marcou.
Não foi para sul. Foi para a Europa.
E aconteceu uma coisa inesperada: apaixonei-me.
Pela luz diferente. Pelo frio que acordava o corpo. Pelo silêncio das ruas. Pela forma como o tempo parecia andar mais devagar.
Ponderei, pela primeira vez a sério, viver ali.
Mas nessa altura venceu o pensamento crítico.
O trabalho fixo.
O medo do certo pelo incerto.
A ideia de que o coração é bonito, mas não paga contas.
Fiquei.
E, com isso, aprendi também a arte difícil de ficar com saudade do que nunca cheguei a viver.
Hoje, a vida devolve-me a cena de outra forma.
Tenho uma filha a terminar os últimos anos de medicina.
E sou eu quem lhe diz, com uma convicção que antes não tinha: não te prendas. Vai. Conhece o mundo.
Nós somos tão pequeninos.
E a vida é grande demais para caber num único mapa.
Talvez eu tenha passado anos a acreditar que só gostava de sol.
Hoje, acordo em dias cinzentos, com temperaturas negativas, longe de casa — e descubro, com uma estranheza doce, que também sou capaz de viver aqui.
Nem tudo o que nos faz bem precisa de ser quente.
Algumas coisas entram devagar.
E ficam.