Hoje é terça-feira e quero falar sobre doenças mentais. Não a partir dos livros, das estatísticas ou da teoria, mas a partir do lugar onde vivo todos os dias.
Vivo com depressão crónica. Há já algum tempo que tento descobrir formas de combater a inércia e a anedonia, aquele estado em que não sentimos propriamente tristeza, mas também não sentimos alegria. Não existem emoções boas nem más. Existe apenas uma espécie de vazio, durante o qual continuamos a respirar, a cumprir algumas obrigações e a atravessar os dias, mas sem verdadeiramente os viver.
Até hoje, ainda não encontrei uma solução definitiva. Não encontrei um remédio capaz de me devolver, de forma constante, a vontade, o entusiasmo ou o prazer nas pequenas coisas.
Tenho vindo a ajustar a medicação com acompanhamento médico, embora reconheça que, por vezes, também faço alterações por minha iniciativa. Na consulta mais recente, aumentámos sobretudo a dose de Elvanse, devido à PHDA. Depois desse aumento, senti que tinha regredido. Os momentos de inércia tornaram-se mais frequentes e mais intensos.
Decidi regressar à dose anterior por minha conta. Sei que este tipo de decisão deve ser sempre discutido com o médico e não pretendo que a minha experiência seja entendida como recomendação para ninguém. Hoje é apenas o segundo dia e, por enquanto, noto algumas melhorias.
Também é verdade que passei uma parte do dia fora de casa. Já percebi que, quando saio, quando mudo de ambiente e sou obrigada a interagir com o mundo, os estados de inércia tendem a diminuir. Não desaparecem, mas tornam-se um pouco menos pesados.
Ainda não consegui compreender totalmente porque é que a depressão se tornou uma presença tão constante na minha vida. Não sei porque é tão difícil apreciar as pequenas coisas, celebrar as pequenas vitórias ou vivê-las com a intensidade que merecem.
Por vezes, isso faz-me sentir ingrata. Olho para aquilo que tenho, para o que alcancei e para as pessoas que me amam, e pergunto-me porque não consigo sentir mais. Mas também aprendi que a depressão não é falta de gratidão. Não é falta de amor. Não é preguiça nem ausência de vontade.
É uma doença.
Eu não tenho culpa de não conseguir sentir tudo aquilo que gostaria de sentir. Mas tenho a responsabilidade de continuar a procurar ajuda e de tentar encontrar um caminho.
Acredito que esse caminho existe. Acredito que um dia voltarei a sentir-me próxima da pessoa alegre que já fui. Ainda não cheguei lá. Continuo nesta descoberta, entre avanços e retrocessos, dias mais leves e outros em que tudo parece exigir demasiado de mim.
Todos os dias tento fazer mais cinco minutos do que no dia anterior. Tento levantar-me, sair, escrever, criar ou simplesmente não desistir. Ainda me isolo bastante. Ainda há dias em que o mundo acontece do lado de fora e eu fico parada, a observá-lo através de uma janela invisível.
Mas continuo aqui.
Se também passas por isto, não estás sozinho. Eu conheço esse silêncio. Conheço a culpa, a apatia, o isolamento e a sensação de estarmos vivos sem conseguirmos verdadeiramente sentir a vida.
Este é o meu registo de hoje.
Não é uma história de superação. Ainda não.
É apenas a história de alguém que continua a procurar o caminho de volta a si própria.