Hoje não escrevi cedo, como gosto.
E isso, por si só, já diz muito sobre este dia.
Ontem foi pesado. Daqueles dias em que se trabalha durante horas seguidas, não por produtividade, mas por tentativa de controlo. Tinha prometido a mim mesma abrir o site na primeira semana do ano. Não aconteceu. Já fiz promessas semelhantes antes e começo a reconhecer o padrão: não é falta de vontade — é receio. Receio de falhar depois de ter investido tanto de mim, da minha energia, da minha mente.
Passei a tarde e a noite a organizar o ateliê. Separei tudo ao detalhe: papelaria, embalamento, produtos, ideias, possibilidades. Como se a perfeição fosse garantir que nada corre mal. Sei que não é. Mas este é um traço antigo em mim: dar tudo, mesmo quando o corpo já pede pausa.
Hoje paguei esse excesso.
Acordei com uma dor de cabeça que me desorganizou por completo. Não consegui cumprir a rotina. Não consegui levar o Artur à escola. O cansaço era tão grande que me imobilizou. E quando isso acontece, a culpa instala-se depressa — como mãe, como mulher, como pessoa.
A minha cabeça estava em confusão. Pensamentos sobrepostos, exigência a mais, decisões adiadas. O perfeccionismo voltou a mostrar-se: quando algo não parece certo, a minha tendência é eliminar, deitar fora, começar de novo — mesmo quando não é necessário.
Há também ruídos antigos que regressam nestes dias. Relações mal resolvidas, silêncios difíceis, situações que ocupam espaço sem avisar. Não entro neles aqui. Apenas reconheço que cansam mais do que deviam.
Hoje percebi isto:
não é falta de amor, nem falta de empenho.
É excesso.
Excesso de exigência.
Excesso de responsabilidade.
Excesso de tentar garantir que tudo corre bem antes de permitir que algo comece.
Este registo não é para justificar nada. É apenas para ficar. Para lembrar que nem todos os dias são claros, produtivos ou resolvidos. Alguns dias servem apenas para mostrar onde é preciso abrandar.
Hoje não avancei.
Mas também não desisti.
E, por agora, isso chega.