A CARTA QUE NUNCA ENVIAREI

A CARTA QUE NUNCA ENVIAREI

Conhecemo-nos em 2009. Em 2026, ainda há coisas que não se dizem — escrevem-se.

Conhecemo-nos em 2009.
Estamos em 2026.
Dezasseis anos não cabem numa frase, mas cabem numa ausência bem guardada.

Entre 2015 e 2020, não foi que me tivesse esquecido de ti.
Não te apaguei.
Não reescrevi a nossa história.
Não fiz de conta que não exististe.

Fiz outra coisa, mais subtil e talvez mais definitiva: segui em frente.
Ou aprendi a fazê-lo.

Entrei noutra vida, noutra pele, noutro ritmo.
Tornei-me mãe.
Tornei-me família.
Tornei-me responsável por alguém que não podia esperar que eu resolvesse nostalgias antigas.

Havia muita coisa boa a acontecer — e, ao mesmo tempo, muita coisa errada.
Um trabalho que me adoecia devagar.
Dias longos, noites curtas.
Um corpo a dar sinais que eu ignorava.

O burnout não chega com estrondo.
Chega como uma névoa.

E essa névoa ajudou a afastar-nos.
Não por decisão consciente, mas por sobrevivência.

As almas também se afastam assim.


O tempo que passou sem passar

Nunca te esqueci.
Mas houve anos em que consegui esquecer que existias.

Até ao dia em que, sem aviso, sem contexto, sem preparação, surgiu uma conversa.
Uma daquelas mensagens que parecem inocentes, mas deslocam móveis antigos dentro de nós.

Foi aí que soube que já eras pai.
Que o teu filho estava a chegar — e que, afinal, já tinha chegado há muito tempo.

Quando disseste “o meu filho está a chegar”, algo em mim cedeu.
Um baque seco.
Difícil de explicar.

Tentei manter a voz estável.
Escolhi palavras neutras.
Perguntei apenas:

“Que idade tem o teu filho?”

Quatro anos.

Foi nesse instante que o tempo se revelou.
Não como memória, mas como medida.

Quatro anos são demasiado tempo para serem ignorados — e, ainda assim, naquele momento, não fizeram sentido.
Porque há pessoas com quem o tempo não pesa.
Pessoas que revemos passado muito tempo e com quem tudo parece no mesmo lugar.

Mas depois disseste que tinhas um filho de quatro anos.
E eu pensei: não, espera.
Como assim?


A vida continuou para os dois

O que me custou perceber — e só percebi depois — é que eu também tinha um filho com a mesma idade.
Só que, naquele momento, isso não me ocorreu.

Não equacionei.
Não liguei os pontos.

Foi como se o meu próprio presente estivesse desfocado enquanto o teu se impunha à frente dos meus olhos.

A vida continuou para os dois.
Mas naquele instante, pareceu-me que tinha continuado mais depressa para ti.

Fui dormir sem palavras suficientes.

Na manhã seguinte, acordei com o corpo pesado e a voz quebrada.
Enviei-te um áudio.
Chorava.

Perguntei-te como foste capaz.
Disse-te que eu quis tanto isso.
Que eu quis tanto uma família contigo.
E que não aconteceu connosco.


O Estoril, o hotel e o Audi TT

Ainda me lembro de uma conversa antiga.
Um hotel no Estoril.

A luz da manhã a entrar pelas cortinas.
O cheiro do café.
O som distante do trânsito.

Ias buscar um Audi TT novo no dia seguinte.

Ri-me e disse-te que só compravas carros para duas pessoas.
Perguntei-te, a brincar, quando pensavas trocar por um maior.

Respondeste-me com naturalidade:

“Para quê? Não estou a pensar constituir família.”

Aquilo caiu-me como água fria.
Não porque fosse inesperado — mas porque confirmou algo que eu já sentia.

Estávamos perto dos trinta.
Eu pensava nisso há muito tempo.
Tu não.

E naquele momento percebi que estávamos a caminhar em direções diferentes, mesmo estando lado a lado.


Eu amava o teu potencial

Hoje sei que não te cobrei por mal.
E sei que tu não recebeste como ataque.

Talvez ambos tenhamos sentido, ali, uma espécie de lamento silencioso.
Não por não termos sido pais.
Mas por não termos sido pais um do outro.

Disseste-me, mais tarde, que sim:
que hoje te arrependias de não ter tido maturidade.
Que eu era a mulher certa — no tempo errado.

E é aqui que te digo, Miguel:
sim, não tiveste maturidade.

Mas eu também não tive os olhos certos.

Eu via-te apaixonada.
E quem ama vê potencial onde devia ver realidade.

Eu não te via pelo que eras.
Via-te pelo que podias vir a ser.
Pela energia que emanavas.
Pela promessa.

Hoje, se te visse com os olhos de agora, não me conquistarias.
Mas naquela altura, eu sabia do que eras capaz antes mesmo de tu saberes.

E apaixonei-me por isso.


A carta que fica por enviar

Éramos muito parecidos.
Somos, talvez, ainda.

Mas hoje cada um está feito à vida que tem.

Há coisas que não se perdem — apenas deixam de ser possíveis.

Talvez tenhamos sido mais felizes juntos do que separados.
Mas nem sempre a vida é como queremos.

Neste caso, é mesmo como eu queria.

Porque, sendo honesta, nem sei se hoje teria coragem.
Tentei.
Disse-te.
Esperei.

E tu disseste-me que não eras capaz.

Não sei se é só pelo teu filho.
Acho que não.

O que eu acho — e dói escrevê-lo — é que talvez nunca tenhas gostado a sério.
Não como eu gostei.
Não com essa entrega inteira que nos desarma.

Esta é a carta que nunca enviarei.
Não para te mudar.
Mas para me libertar.

Algumas histórias não terminam.
Aprendemos apenas a viver com elas em silêncio.



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