Enviei-lhe o livro em PDF há alguns dias.
Não perguntei se já tinha lido. Não cobrei resposta. Não insisti.
Fiquei apenas à espera — não de uma reação grandiosa, mas de um sinal mínimo de curiosidade.
Pensei que houvesse curiosidade.
Pelo menos eu teria.
Não por vaidade. Não por nostalgia.
Mas porque aquele livro fala de mim, sim — e, inevitavelmente, fala também dele. Fala do lugar onde nos tocámos, do que existiu entre dois corpos e duas consciências, ainda que em tempos diferentes, ainda que com pesos diferentes. Há sempre curiosidade quando nos reconhecemos numa história. Ou quando desconfiamos que alguém nos escreveu por dentro.
Mas não houve leitura.
Ou, se houve, foi adiada.
E o adiamento, quando se repete, começa a parecer outra coisa: desinteresse.
Não sei se este sentimento é válido. Questiono-me.
Talvez seja exagero. Talvez seja projeção. Talvez seja apenas cansaço meu.
Mas há uma ferida específica que nasce aqui: a sensação de insignificância.
Como é possível sentir-me tão pequena perante alguém, quando sei — com lucidez — que sou uma presença forte?
Como é que estas duas verdades coexistem no mesmo corpo?
De um lado, sei quem sou. Sei o que construí. Sei o que escrevo. Sei a intensidade com que me dou às coisas e às pessoas.
Do outro, sinto-me invisível no olhar de alguém que marcou profundamente a minha vida.
E isto parece incoerente.
Mas não é.
A insignificância que sentimos perante alguém não nasce da nossa falta de valor.
Nasce da assimetria.
Quando nos doamos mais do que o outro consegue — ou quer — receber, cria-se um desnível silencioso. Não é culpa. Não é maldade. É limite. E os limites alheios doem mais quando batem no lugar onde somos abundantes.
Eu doei curiosidade, presença, escuta, entrega.
Ele devolveu distância, adiamento, silêncio.
E o silêncio tem uma linguagem própria. Não grita, não explica, não se defende. Apenas se instala.
Há dias em que me pergunto o que ele teve de aprender comigo. Ainda não sei responder. Talvez tenha aprendido que alguém pode amar sem pedir garantias. Talvez tenha aprendido que a intimidade não é um jogo. Talvez nada disso.
Quanto a mim, ainda não sei o que tive de aprender com ele.
Ainda sofro. E enquanto se sofre, o significado não se revela.
Dizem-nos muitas vezes que as relações vêm ensinar lições.
Mas nem todas vêm com moral clara. Algumas vêm apenas abrir fendas que demoram anos a fazer sentido.
O que sei, hoje, às 5h30 da manhã, é isto:
não sou insignificante porque alguém não me lê.
Não sou pequena porque alguém não tem curiosidade suficiente para entrar onde fui inteira.
O desinteresse do outro não é a medida da minha existência.
É apenas o retrato do lugar onde ele consegue — ou não — ir.
Talvez um dia ele leia o livro.
Talvez nunca leia.
E talvez isso diga mais sobre o mundo dele do que sobre o meu.
Escrever isto não é um pedido.
Não é um recado.
É um gesto de honestidade comigo.
Há silêncios que nos diminuem.
Mas há palavras que nos devolvem ao tamanho certo.
E hoje, escrever foi isso: voltar a caber em mim.
Se quiseres, no próximo passo posso: