Há histórias que não acabam quando acabam.
Ficam suspensas. Mal resolvidas. A viver dentro de nós como um eco que regressa quando já pensávamos estar a salvo.
Esta começou em 2009.
Estamos em 2026.
Pelo meio, vidas inteiras: famílias, filhos, escolhas, ausências. O tempo fez o que pôde. Nós fizemos o que sabíamos. E, ainda assim, um dia houve contacto. Houve conversa. Houve verdade — ou algo muito parecido com isso.
Disse-me que eu tinha sido a mulher certa no tempo errado.
Disse-me que não teve maturidade.
Disse-me que se arrependia.
Disse-me que, se tivesse sido diferente, nós teríamos funcionado.
Quem ouve isto depois de anos de silêncio não fica intacta.
Ainda por cima quando já vem cansada, quando já viveu perdas, quando já construiu uma vida inteira em cima de ruínas antigas.
E depois vem a parte mais cruel:
dizer tudo… para, no fim, dizer que não significa nada.
Que já não consegue ser quem foi.
Que não consegue sustentar o que sente.
Que não consegue alimentar nada — mas, ainda assim, insiste em abrir a porta, em aparecer, em chamar, em confundir.
Não pedi explicações.
Não pedi promessas.
Mas ele fez questão de falar.
E falar, quando não se sabe sustentar sentimentos, é uma forma de violência.
O que fica é a ruminação.
A pergunta que não serve para nada: e se?
E se foi preciso viver tudo isto para, no fim, duas pessoas ficarem a sofrer?
A gota final não foi o amor.
Foi o livro.
Enviei-lhe o manuscrito antes de ser publicado. Não como passado, não como memória — mas como obra. Como escritora. Como alguém que colocou ali uma vida inteira.
Durante semanas, silêncio.
Quando respondeu, fê-lo com distância clínica. Como se eu não fosse aquela história. Como se não fosse aquela pessoa.
Lembro-me de estar sentada no carro. Tudo me caiu por dentro.
Dias depois, numa tarde banal, apareceu-me uma frase num ecrã qualquer:
“Fecha a porta da tua vida para ele.”
Não era para mim.
Mas era.
E é isto que quero que fique claro — para ti que estás a ler:
Isto não tem a ver com eles.
Tem a ver connosco.
Há pessoas que não conseguem sustentar sentimentos verdadeiros. Fogem. Dissimulam. Dizem e recuam. Aproximam-se e desaparecem. Não porque sejamos demais — mas porque somos demasiado verdadeiros para quem vive à superfície.
Não lhes dês acesso à tua vida.
Não lhes dês notícias tuas.
Não lhes dês o privilégio de saber se estás bem ou mal.
Quem te ignora não merece intimidade.
Quem ama não confunde.
Não deixa à espera.
Não cria insegurança.
Não dá migalhas.
E por isso, sim: fecha a porta.
Da tua casa. Do teu coração. Da tua vida.
Dói.
Dói muito.
Mas é a única coisa sóbria, saudável e digna que se pode fazer.
Eu fechei.
E desta vez é de vez.