Pai Nosso,
Ontem passei o dia a embrulhar o que não me pertence.
Não foi um gesto bonito, nem rápido.
Foi cansado, repetitivo, quase doméstico.
Mas enquanto as mãos fechavam caixas,
o coração abria espaço.
Há dias assim, Senhor.
Dias em que não se escreve,
não se produz,
não se explica.
Dias em que apenas se separa.
O que fica.
O que vai.
O que nunca foi meu, apesar de ter passado pelas minhas mãos.
Ontem percebi que alinhar-me não é fazer mais,
é desistir de carregar o que não me foi pedido.
É aceitar que nem tudo o que entra na nossa vida
é chamado.
Algumas coisas são apenas passagem.
Outras, aprendizagem.
Outras ainda, prova.
Enquanto embrulhava, fui rezando sem palavras.
Uma oração feita de silêncio,
de respiração funda,
de escuta.
E foi aí que Te ouvi com clareza,
não como quem ordena,
mas como quem acompanha.
Sentámo-nos juntos.
Eu com o cansaço.
Tu com a paciência eterna.
E traçámos um plano.
Não um plano para impressionar.
Não um plano para explicar aos outros.
Um plano que pede fidelidade diária
e confiança quando o chão parece faltar.
Um plano que exige mais verdade do que pressa.
Mostraste-me que os Teus caminhos
raramente são barulhentos.
Que o Reino cresce devagar,
como fermento escondido na massa.
E que a pressa é quase sempre inimiga da fé.
Ensina-me, Pai, a respeitar os tempos.
Os Teus e os meus.
A não confundir ansiedade com urgência
nem silêncio com abandono.
Afasta-me do ruído que me dispersa
e dá-me a coragem mansa
de continuar mesmo quando ninguém vê frutos.
Não Te peço facilidades.
Peço raiz.
Peço discernimento.
Peço que me ajudes a caminhar sem endurecer,
a escolher sem trair quem sou,
a recomeçar quantas vezes forem precisas
sem perder a ternura.
Que o que fica em mim fique leve,
sem apego nem medo.
Que o que sai saia abençoado,
sem rancor nem culpa.
E que eu caminhe inteira, Senhor,
mesmo na incerteza,
sabendo que cada passo dado contigo
é já chegada.
Ámen.