O DIAMANTE NASCE DO CANSAÇO 11/01/26 23:46

O DIAMANTE NASCE DO CANSAÇO 11/01/26 23:46

Escrever a esta hora nunca é inocente.
Significa que a manhã foi longa, que o dia exigiu mais do que parecia razoável, que o corpo só agora teve autorização para parar. Quando escrevo tarde, é porque trabalhei cedo. E muito.

Passaram-se poucos dias desde o início do ano, mas noto diferenças — pequenas, quase impercetíveis, mas reais. Em mim. Não por orgulho. Não por pose. Mas por sobrevivência emocional.
Tenho tentado cumprir aquilo que prometi no final de 2025: preocupar-me menos com o que pensam, com o que dizem, com o que vão interpretar. Fazer mais aquilo que sinto. Ser mais honesta comigo.

No fundo, só comecei a ser mais eu.

E se isso magoar alguém, talvez seja apenas sinal de que eu não estava no lugar certo. Porque viver uma vida onde não podemos ser quem somos é um erro silencioso que se paga caro. Os outros vivem — dormem quando querem, descansam quando podem, comem quando lhes apetece. Eu sempre fui a pessoa que mais se preocupa com o que os outros sentem. E talvez, finalmente, tenha aprendido a ouvir a minha própria voz a dizer: calma, tu também mereces ser escutada.

Nada disto é perfeito. O caminho não é fácil. Sei que vou tropeçar, duvidar, cansar-me. Mas será na minha persistência, na minha inteligência, na minha capacidade de ficar — de ser a última a sair — que vou perceber se este é, ou não, o meu caminho.

Hoje tive coragem.
Coragem verdadeira.
Andei semanas a adiar, a tentar introduzir tudo e mais alguma coisa, sem conseguir avançar. Vídeos adiados, gravações falhadas, bloqueios técnicos, pagamentos suspensos, impressoras novas que decidiram não colaborar — até elas resolveram testar-me. E eu fiquei. Fiquei a tentar. Fiquei até ao fim.

Entre cinema, parque, metro, filas de trânsito e ecrãs constantemente atualizados, vivi agarrada ao telemóvel a tentar fazer o mundo digital funcionar. À noite, adormeci onde calhou. Às vezes o corpo só precisa disso: parar. Não importa onde, nem com quem. Só parar.

Há meses que acordo às cinco da manhã. Fico quieta na cama porque sei que levantar-me seria absurdo — chegaria ao fim do dia a cair. Ainda assim, hoje consegui trabalhar quase tudo. Dormi no cinema, é verdade. Nem vi o boneco. Mas estive. E às vezes isso basta.

A depressão é uma presença antiga nesta família. Nunca falei muito dela, mas ela existe. Não se herda como um apelido, mas acompanha-nos como uma sombra persistente. É um buraco negro silencioso, onde se ri por fora e se cai por dentro. E não, não se controla por força de vontade. Ainda menos quando se está medicado, quando a química do corpo nos empurra para picos de energia e quedas abruptas.

Há dias em que faço compras como quem tenta tapar uma ferida antiga: escassez, carência, medo. Compro porque agora posso. Porque antes não podia. Porque olho para o meu filho a crescer depressa demais e quero que lhe sobre conforto, não falta. Não sei sempre distinguir o que é excesso do que é cuidado. E talvez isso também faça parte do processo de aprender.

Este ano não é o ano da riqueza. É o ano da estabilidade. E eu ainda estou a aprender o que isso significa para mim.

Ontem falei com alguém do passado. Pedi desculpa, não por culpa, mas por ruído interno. Porque viver em paz é mais importante do que ter razão. Não acredito em lições dadas aos outros à custa da nossa tranquilidade. O que conta é o que fica cá dentro. E eu só quero isso: estar em paz.

Às vezes cruzamo-nos com pessoas apenas para aprender. Para ensinar. Para seguir. E está tudo bem assim.

Escrevo isto agora porque ontem não escrevi. E hoje precisei de dizer mais. Talvez alguém leia e sinta que este texto é para si. Talvez não. Mas é, sem dúvida, para mim.

E isso, hoje, chega.

Amém.