Escrever a esta hora não é acaso.
É consequência.
Consequência de dias em que o cansaço se acumula, de quando se trabalha para além do limite e o corpo começa a pedir aquilo que a cabeça insiste em negar. Hoje percebi, com clareza, que quando uma coisa cai, parece que tudo cai ao mesmo tempo. A exaustão já lá estava — e depois chegou uma carta. Daquelas que testam a estrutura emocional, a paciência e a capacidade de não reagir por impulso.
Durante anos, a minha resposta teria sido imediata. Resolver tudo no mesmo dia. Não deixar nada para amanhã. Não permitir pausas. Foi assim que cheguei a um burnout longo, profundo, que me ensinou — da forma mais dura — que a mente também falha e que o corpo cobra tudo o que ignoramos.
Hoje escolhi diferente.
Recebi uma carta da Ordem dos Advogados a anunciar a intenção de arquivar a queixa que fiz contra o meu antigo advogado, o mesmo que reteve uma quantia avultada de dinheiro que me era devida e desapareceu. A carta é fria, burocrática e reveladora de uma falta de investigação que não surpreende, mas magoa. Ainda assim, pela primeira vez, não reagi de imediato. Não por desistência — mas por lucidez.
Não tenho hoje estrutura emocional para lidar com isto como merece. E isso também é informação.
Decidi proteger-me. Deixar para amanhã. Para um momento em que a cabeça esteja limpa, organizada e capaz de responder com firmeza e clareza. Isto resolve-se. Mas não tem de ser resolvido hoje.
Esta decisão é nova em mim. E é preciosa.
Serve também para quem, como eu no passado, acreditava que tudo tinha de ser feito já, agora, sem falhas nem adiamentos. O corpo não aguenta. A mente não perdoa. Os sinais aparecem — e quando já passámos por isso, aprendemos a reconhecê-los.
Hoje obriguei-me a parar.
Hoje escolhi não entrar em modo de ataque.
Hoje escolhi cuidar.
Saber dizer chega é bonito.
Parar a tempo é mais bonito ainda.
Tomar conta de nós é um acto de coragem silenciosa.
É com esta versão de mim — mais consciente, mais inteira e menos violenta comigo própria — que me comprometo a viver e a trabalhar este ano.