Hoje aconteceu uma coisa que não cabe dentro de uma frase.
Os dias têm passado difíceis, densos, com aquele peso invisível que se instala nos ombros e nos faz andar mais devagar sem sabermos explicar porquê. Desde que voltámos da Alemanha que o tempo parece curto e áspero. Entre papéis, telefonemas, decisões e vozes que nem sempre sabem ser humanas, tenho sentido o mundo como quem toca numa superfície fria. Há pessoas que respondem como se a vida fosse uma sala de espera eterna e nós apenas mais um número a interromper o silêncio delas. Hoje uma voz gritou comigo ao telefone. Não me feriu. Fez apenas eco. Porque às vezes percebemos que a dureza dos outros é só cansaço mal resolvido.
Mas não era isto que eu queria guardar deste dia.
Hoje chegou o meu livro.
Ainda tenho as mãos com a memória da caixa. O cartão áspero debaixo dos dedos. O coração a bater como se estivesse a abrir uma carta que esperei anos para receber. Não estava à espera. Não hoje. Talvez por isso o instante tenha sido tão inteiro. Há momentos que não pedem anúncio. Entram na nossa vida como luz pela fresta de uma porta.
Segurei-o.
E houve um silêncio.
Não um silêncio vazio. Um silêncio cheio de tudo. Cheio de noites antigas, de lágrimas escondidas, de frases escritas quando ninguém via, de partes minhas que pensei que tinham ficado perdidas no tempo. O cheiro do papel novo misturou-se com memórias antigas. É estranho como um livro pode cheirar a passado.
Este livro foi um sonho antes de ser objeto. Sonhei-o durante anos. Sonhei as mãos que o abririam, os olhos que se demorariam nas páginas, as pessoas que talvez se reconhecessem ali. Nunca nada acontece como imaginamos. As pessoas que achamos que vão sentir mais às vezes não sentem nada. E as que nunca imaginámos aproximam-se devagar e dizem baixinho que leram com o coração aberto. A vida não falha. Apenas escolhe caminhos que não controlamos.
Partilhei este livro com o Miguel. Ou com aquilo que restou dele dentro da memória. Porque o Miguel já não é o Miguel. Nem sequer é a personagem principal. Tornou-se silêncio. Tornou-se distância. Tornou-se quase nada.
E foi aí que percebi.
Este livro nunca foi sobre ele.
Este livro é sobre sentir.
Há pessoas que passam pela vida como quem atravessa uma sala vazia. E há outras, poucas, raras, que sentem com a alma inteira, como se cada gesto fosse uma maré, como se cada palavra tivesse temperatura, como se cada lembrança fosse pele. Este livro pertence a essas pessoas. Às que sabem que sentir não é fraqueza. É destino.
Escrevi-o com tudo o que tinha. Não deixei nada guardado. Nenhuma verdade por dizer. Nenhuma emoção por confessar. Houve noites em que chorei sobre as páginas. Houve frases que me tremiam nas mãos. Houve momentos em que tive medo de continuar e continuei na mesma.
Lembro-me de quando o escrevia pensar que um dia, se fosse velha e a memória me abandonasse, queria que alguém mo lesse em voz alta para eu me voltar a reconhecer. Hoje já não preciso disso. A vida levou-me mais longe. Escrevi outros livros. Vivi outras versões de mim.
Mas este.
Este é o lugar onde uma parte da minha alma ficou impressa para sempre.
E se eu pudesse voltar atrás no tempo e sussurrar à Susana de outros anos que um dia ela seguraria nas mãos a prova física daquilo que sentiu, sei que ela não perguntaria se valeria a pena.
Ela só choraria.
De orgulho.