SOBRE A ESCASSEZ, O MEDO E A FORMA COMO APRENDEMOS A COMPRAR 07/01/26 17:52

SOBRE A ESCASSEZ, O MEDO E A FORMA COMO APRENDEMOS A COMPRAR 07/01/26 17:52

Vim da escassez.
Não daquela que se conta por números, mas da que se instala no corpo e não sai facilmente.

Cresci a aprender que as coisas acabam. Que hoje há, amanhã não se sabe. Que quando existe uma oportunidade, é melhor agarrá-la — porque pode não voltar. Esse ensinamento não foi verbal. Foi vivido.

Hoje sei que isso moldou a forma como me relaciono com as compras. Com os objectos. Com a ideia de ter. Com a ideia de perder.

Tenho uma tendência para comprar impulsivamente. Não por vaidade, nem por excesso de desejo — mas por medo. Medo de voltar a não ter. Medo de precisar e não conseguir. Medo de ficar desprotegida.

Há coisas que compro e depois não uso. Não porque não goste delas, mas porque tenho receio de as estragar. Como se usá-las fosse aproximar-me da perda. Como se o desgaste fosse uma ameaça maior do que a privação.

Às vezes, dou por mim a pensar que, se tiver duas unidades da mesma coisa, fico mais tranquila. Posso usar uma, porque a outra fica guardada. Como se a duplicação fosse uma forma de segurança emocional.

Percebo hoje que isto não é consumo inconsciente.
É sobrevivência tardia.

É o corpo a tentar garantir que nunca mais falta.
É a mente a tentar manter controlo sobre um futuro que, em tempos, foi imprevisível.

Também estou a aprender que lutar contra isto com rigidez não ajuda. Que dizer “não posso” apenas reforça a ansiedade. O caminho tem sido outro: observar, nomear, abrandar. Perguntar-me porque quero comprar, e não apenas o que quero comprar.

Não estou curada deste padrão. Estou consciente dele. E isso já muda tudo.

Partilho isto porque sei que não sou a única. Há muitas pessoas que vieram da escassez e hoje vivem este conflito silencioso: têm, mas não usufruem; compram, mas guardam; desejam, mas têm medo.

Se te revês nisto, quero dizer-te uma coisa simples:
não estás a falhar. Estás a reaprender.

A segurança que procuramos nos objectos não vem deles. Vem da confiança — construída devagar — de que saberemos cuidar de nós, mesmo quando algo faltar.

Estou nesse caminho. Um passo de cada vez. Com atenção. Com verdade. Sem me punir.

E talvez seja assim que a abundância começa.