Cresci cedo demais.
Não por escolha,
mas por ausência.
Pais jovens.
Uma casa onde o corpo estava,
mas a presença não sabia ficar.
O afecto entrava e saía
sem aprender o caminho de volta.
Aos doze anos disseram-me para sair.
Não por rebeldia.
Por ter dito a verdade.
Nesse dia aprendi duas coisas:
que a palavra tem custo
e que nem todos suportam o espelho
quando ele fala.
A partir daí, vivi sem rede.
Sem lugar assegurado.
Sem a proteção a que chamam infância
como se fosse um direito natural.
Nunca aprendi a brincar sem atenção ao perigo.
Aprendi a vigiar o ambiente,
a medir silêncios,
a perceber quando era melhor calar.
Não me ensinaram a descansar.
Ensinaram-me, sem saber,
a aguentar.
A observar.
A ficar de pé quando ninguém ficava.
A infância não me foi retirada de um golpe.
Foi-se interrompendo.
Devagar.
Em pequenos cortes quase invisíveis.
Até restar apenas o essencial:
continuar.