O Miguel entrou na minha vida como quem abre uma janela.
Ar fresco. Conversas fáceis. Uma ternura que parecia simples.
Havia luz. Havia riso. Havia promessa.
Durante algum tempo, acreditei.
Depois, lentamente, a janela fechou-se.
Não houve estrondo.
Houve silêncio.
O encanto morreu sem anúncio.
E no lugar do homem que me fazia crescer, surgiu outro:
um homem que diminuía,
que se alimentava da minha dúvida,
do meu silêncio ferido,
da minha tentativa constante de não incomodar.
O Miguel não morreu.
Mas o homem que eu amei deixou de existir.
E isso dói como luto,
porque não se chora apenas quem morre —
chora-se quem desaparece em vida,
quem se transforma em algo irreconhecível,
quem nos obriga a enterrar a ideia que tínhamos do amor.
Não foi o fim de uma relação.
Foi o fim de uma ilusão.
E esse tipo de perda
marca o corpo.