NÃO LHES TOQUEM - UM PROTESTO POR QUEM AINDA NÃO SABE DEFENDER-SE

NÃO LHES TOQUEM - UM PROTESTO POR QUEM AINDA NÃO SABE DEFENDER-SE

Estamos em pleno século XXI e ainda ouvimos nas notícias que uma criança foi agredida numa creche. Um estalo. Não foi um gesto impensado nem um empurrão no meio de uma confusão. Foi uma agressão tão violenta que a criança desmaiou. Pensaram que tinha morrido. Só escrever isto já me revolta.

Este sempre foi um dos meus maiores receios enquanto mãe. Houve quem me chamasse exagerada, demasiado protetora, dramática. Nunca dei ouvidos. Certos medos não aparecem por acaso, nascem da memória e daquilo que sabemos que é possível acontecer.

Cresci nos anos 80, numa altura em que bater em crianças dentro da escola era quase aceite como método. Professores batiam, donos de escolas batiam, e muitos pais engoliam aquilo como parte da educação. Os meus também. Era o que se fazia. Hoje olho para trás e percebo o quanto normalizámos o inadmissível.

Se algo semelhante acontecesse com um filho meu, a reação jamais seria silenciosa. Mexer com crianças é tocar no ponto mais sensível de qualquer ser humano. Há limites que não se discutem, simplesmente existem. E este é um deles.

O que mais me inquieta é saber que há tantas pessoas competentes, dedicadas, à procura de trabalho, e depois vemos adultos com a responsabilidade de cuidar de crianças a cometer atos que não têm justificação. Trabalhar com crianças é um compromisso humano antes de ser uma profissão. É participar na formação de alguém que ainda está a descobrir o mundo. Como é possível transformar isso em violência?

Nem consegui ver a entrevista dos pais até ao fim. Porque quando ouvimos histórias assim, imaginamos inevitavelmente os nossos filhos naquele lugar, e só essa ideia é suficiente para nos abalar.

Sei que a maioria dos educadores exerce a profissão com dedicação e carinho, e seria injusto generalizar. Ainda assim, basta uma falha para quebrar a confiança. Quando falamos de crianças, a margem de erro devia ser praticamente inexistente.

Vivemos numa época que se orgulha de progresso, evolução e consciência social, e mesmo assim continuamos a assistir a situações que pertencem a um passado que julgávamos ultrapassado. Isso devia inquietar-nos a todos.

Este texto não é um ataque cego. É um protesto contra a má formação, contra a negligência, contra a perigosa tendência de desvalorizar o que as crianças dizem. Crianças sentem, registam e vivem tudo com intensidade. Cabe aos adultos proteger, escutar e agir.

É na infância que se constrói a base emocional de uma pessoa, e isso não é detalhe, é fundação.

Enquanto mãe, enquanto mulher, enquanto ser humano, recuso-me a tratar isto como apenas mais uma notícia. Há coisas que não podem ser normalizadas.

Nunca.

Qual a tua forma de expressão?