A caminho de casa, mas ainda a muitas centenas de quilómetros.
Ontem não consegui escrever no blogue. Voltei, por dois caminhos, ao passado.
Um deles eu achei que estava resolvido.
Talvez porque a depressão tenha batido à porta e eu tenha procurado um prazer momentâneo, um alívio rápido.
Mas não. Não estava resolvido. A mesma escuridão, antiga, voltou a aparecer, como um quarto que julgamos fechado.
O outro caminho é mais pessoal.
Não o vou expor. Mas obrigou-me a parar e a olhar para mim com atenção: perceber se a forma como os outros nos olham diz mais sobre nós ou sobre eles.
Porque o peso do que nos dizem, quando nos apanha num dia frágil, pode crescer de forma desproporcionada.
Escrevo isto para quem está a passar por uma depressão, ou para quem já passou. Eu passei por uma depressão profunda causada por um burnout de quase três anos.
E é inevitável: não se atravessa isto sem marcas.
O cansaço fica. No rosto, nos olhos, na expressão.
E depois acontece: alguém que não nos vê há muito tempo reencontra-nos e diz que é visível. Que estivemos num buraco profundo. E mesmo que não haja maldade, aquilo pode abalar. Porque ficamos a perguntar-nos se aquilo é verdade, se é tudo o que se vê, se somos só isso.
A questão, para mim, tornou-se simples e difícil ao mesmo tempo: o outro está a falar de algo que realmente se vê em mim ou da sua própria forma limitada de olhar?
A cura possível passa por aqui: é preciso coragem para não levarmos uma frase para a cama connosco.
Para não a deixarmos entrar nos dias seguintes.
Para não permitir que uma opinião se transforme numa identidade.
O cansaço não é fealdade. Não é idade. Não é fracasso. É um sinal. Um lugar legítimo de transição. Às vezes, até o início de uma mudança.
E também é essencial escolher a quem damos autoridade.
Nem todas as pessoas merecem esse poder.
Convém olhar bem para quem diz, perceber se essa pessoa importa verdadeiramente.
Porque, no fim, é bom lembrar: quem vê caras não vê corações.
E isso não nos diminui. Protege-nos.